"SAUDADE"

"Αυτό που δεν με σκοτώνει με κάνει πιο δυνατό"
"Beni öldürmeyen Beni güçlendiriyor"

"Lo que no me mata Me hace más fuerte"

Tot allò que no em mata Em fa més fort


Dimecres 2o d'Abril del 2011
Miércoles 2o de Abril del 2011
Τετάρτη 20 Απριλίου 2011
2o Nisan 2011 Çarşamba
Quarta-feira 20 Abril de 2011


___IMATGE DEL DIA___

"Decepções faciais ..." (Il.lustració: Enric)

___Saudade___

Um repentino estrondo. Nada e tudo são, exactamente esse tudo-nada do espaço nas mentes.

Vejo distantes sereias...

... e embarcações que partem sobre ondas somamdo-se hasta insondáveis infinitos.

Luz que dá volume as coisas banais, as paredes e gatos que fogem dos tapumes coroados com cristais e botelhas rotas.

A vida comença docemente seu palpitar quotidiano e as humidades e azulejos colorem frontarias das casinhas vetustas que contêm, entre seus muros, suspiros e gritarmos, pegadas de vidas e mortes daqueles gerações agora na velhice.

O caminho de Mira a Figueira da Foz suscita a lembrança dos quase remotos atalhos checos que visitei fazia já demasiados anos atrás.

Lá, entre aquela pequena postal afeiçoa de desordens matutinos um aroma do salitre delatava um perto mar, imperceptível mas obviamente imediato que deixava chegar resvalando para a aldeia uma densa língua de bruma. Poucos homens posicionados na porta da tasca à espera do primero dos vinhos verdes do dia.

Madeira sempre húmida, lodo, chinelos de esparto e bochechas coradas. Algum que outro posto de venda de hortaliças e poucos frutos solamente na época em que estes, chegados da ilha de Madeira, (mangas, bananas e goiabas) começam sua maturação e colheita lá, ao longe.

Há farmacia, igreja, a susodita casa dos vinhos e dos bêbados assim como certos negócios particulares de venda das rendas de linho tecidas pelas sábias mulheres, consideradas pela aristrocracia das urbes como parte da comunidade malta.

Na teberna o fumo invade tudo e, reza um cartel amarelado, prejudica seriamente a saúde mas, paradoxalmente, tonifica por enquanto a essa velhinha com bengala e meias-calças alaranjadas que sustém na comissura dos lábios um SG gigante a meio consumir: ela é meio madame, dizem as línguas afiadas. Mira impertérrita a quadrilha de homems do mesmo modo que miraria os cordeiros ruminar: bocas pútridas mastigando tabacos que depois cuspirão no piso lajeado o sobre sepulturas dos senhorinhos do tempo de Salazar, tão recordados. E, de vez em quando, fita seus olhos de esguelha a través da emporcalhada janela e vigila as gentes que andam nas proximidades do portão sombrio do Café Saudade.

Sentado numa mesinha de mármore e degustando meu vino Gazela vejo a tremadeira incontrolável nas mãos do pobre João, o maluquinho do povo que mastiga sementes dos girassóis, os olhos de Clytie, num rincão triste e obscuro do balcão abarrotado de taçase mais que usado.

São também irreprimíveis as comichões no púbis tosado de Lola, a garota da boceta barbeada a navalha e sem espumas, da xoxota podada e assolada a ferro e a fogo pela vizinhança. Seu sorriso está sempre debuxado com asco, cheio de rancores para os pagadores desdentados, por inteiro gentes de odiosa rusticidade que afloram como fantasmas nas noites e quando sonha. Seus lábios beijam por não matar e miram sem quer ver: a vida é, diariamente, um montão de merda...

As pessoas, as coisas, os móveis e almas aos pedaços poden sentir certas vibrações daquelas cordas de antano. Seus dedos de prata (hoje ganchos contorcidos) e suas polpas roçavam metais e madeiras da guitarra portuguesa nas lembranças daquele night club em Coimbra. Hoje suas mãos trêmulas caminham ao compasso dos nervos arrastados pela depressão vendo-se presa do álcool e suportam copos de vinhos infames da mesma forma que Sócrates fez com cicutas vetustas. Finalmente, outro nostálgico e genuíno cádaver da terra.

Salomão vive no mais obscuro das obscuridades na tasca Saudade. Sente os lamentos dos gangsters históricos e também das pequenhas pedras, seixos rolados e cálculos renais da sociedade. Emborca até as minúcias do gin tonic e esboça um sorriso como si fora um Humprey Bogart lusitano de meia-tigela, soltando sempre a fumaça dos cigarros ofertados. O câncer sorri novamente dentre seus amarelentos dentes e, cada noite, quando os vapores etílicos chegam já ao teto e trastornam as mentes dos camponêses, Salomão, exercitando seu emprego agarra da peitaça algum parroquiano que terminará no barro com sua cara sangrenta depois das surras e chuva de porradas do bazófio.

Uma fria humidade e aquele futum de sardinhas pegajoso. Névoa que ocupa espaços e deglute estradas. Calmas caravanas de caminhões que fugem como camelos para inhóspitos caravançarais. Lâmpadas diminutas dando oportunidade ao mínimo santo aparecendo debruçado num nicho envidraçado: na verdade, como um televisor de transcentalidade atávica plantado a céu aberto, sempre molhado quando não acaba tostado lá debaixo do sol impenitente de verão. Brancas fachadas e caireles dum azul celeste. Passarinhos estranhos bicando a luz cegante dum farol distante, ali onde as ondas rompem nas rochas: preta garganta que se funde além dos horizontes. Secura na laringe, eco secular dum curto e contundente estrondo: parte um novo navio.

Se somam as ondas na minha saudade infinita e morrem infinitos horizontes numa poça de gasolina ardendo: o futuro das saudades desses ardores criará, indefectivelmente, neras colunas de fumo mortuário.

Ámen

N.d.A. "Seja, aqueste, um pequeño e vívido homenagem aos amigos de fala portuguesa -aqueles que são e também aos que foram amizades e cúmplices deste que aqui escreve-.

Também quer ser um sentido gesto de gratidão para as gentes que me deram forças nos momentos fodidos e um pouco de alento para continuar no meu andamento.

Obrigado, do mesmo modo, a todos os grandes cantores, escritores, poetas e artistas em geral que me fizeram sonhar, viajar, sentir e amar nesta tão linda língua que, incipientemente, começo a explorar. Assim, espero humildemente da sua compreensão e benevolência. Naturalmente, qualquer sugestão ou correcção será bem-vindo".

___Paixões Diagonais___

“Do que fala a madrugada / De que habla la madrugada
O murmúrio na calçada / El susurro en la calzada
Os silêncios de licor / Los silencios de licor
Do que fala a nostalgia / De que habla la nostalgia
De uma estrela fugidia / De una estrella huidiza
Falam de nós, meu amo r / Hablan de nosotros, amor mío
Do que sabem as vielas / De que saben las callejuelas
E a memória das janelas / Y la memoria de las ventanas
Ancoradas no sol-pôr / Fondeadas en la puesta de sol
Do que sabem os cristais / De que saben los cristales
Das paixões diagonais / De las pasiones diagonales”

Canta Mísia
Composição de João Monge e Miguel Ramos
...

2 comentaris:

Josafá Crisóstomo ha dit...

Seu texto é riquíssimo!
Quase não há erros e quando os há são meros erros de ortografia...
Seu texto denota uma cultura ímpar inclusive em relação a contextos muito particulares da semântica da nossa língua.
Fico impressionado com a riqueza das imagens e do perfil de cada personagem esboçado.
Achei emocionante tudo por aqui e penso que sua sinceridade é o melhor de você em todas as suas manifestações!
Obrigado por tudo. Nós que o conhecemos é que temos que agradecer por você ser você mesmo sempre!
um grande abraço apertado meu amigo!

ENRIC ha dit...

Hi Josafá,

Bom, muito obrigadinho a vocè pela generosidade que eu não mereci.
Mas, tenha en conta,sinceridade é, a miúde, sinónimo ou, au menos para mim, ração das desgraças "sociais" mais superlativas e atrozes.

Dizer aquelo que umo pensa é, quando mais não seja, garantia de atracão para os problemas e, certas pessoas (like me) se relaxan e perdem na literatura vivencial e assim exorcizam os monstros que um dia foram olhados de soslaio nalgum rincão desses mundos de Deus...

Agora, pese aos silêncios que deu à luz a nebulosa e que causa a pedra au percutir contra o sílex (justo depois da fagulha da criação e muito antes do Armagedão), sou eu mesmo aquele que cala a boca e grita com sua alma.

Obrigado pela visitinha, pelas palavras e, sobretudo, pela compreensão voluntariosa.

Até mais ver.